Eles as enviam de madrugada, quando seus pais estão dormindo. Em restaurantes e ao atravessar ruas movimentadas. Na sala de aula, com as mãos ocultas por trás das costas. Seus polegares chegam a doer, de tanto que escrevem. Estimulados pelos planos sem limites para mensagens de texto oferecidos por operadoras de telefonia móvel como a AT&T Mobility e a Verizon Wireless, cada adolescente norte-americano enviou e recebeu em média 2.272 mensagens de texto por mês no quarto trimestre de 2008, de acordo com a Nielsen – quase 80 mensagens ao dia, mais que o dobro da média registrada um ano antes. O fenômeno começa a preocupar os médicos e os psicólogos, que afirmam que ele está conduzindo a ansiedade, distração nas aulas, queda nas notas, lesões por esforço repetitivo e privação de sono. O médico Martin Joffe, pediatra em Greenbrae, Califórnia, recentemente pesquisou entre os alunos de duas escolas locais de segundo grau e disse ter descoberto que muitos deles trocavam centenas de mensagens de texto ao dia. “Elas chegam em intervalos de poucos minutos”, diz. “E essa garotada também diz que responde a mensagens no meio da madrugada. Isso vai causar problemas de sono em uma faixa etária para a qual distúrbios de sono já são uma questão grave.” A ascensão no uso das mensagens de texto é recente demais para que tenham surgido quaisquer dados conclusivos quanto aos seus efeitos sobre a saúde na prática. Mas Sherry Turkle, psicóloga e diretora do Iniciativa de Tecnologia e Pessoa no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que há três anos estuda o uso de mensagens de texto entre os adolescentes da região de Boston, diz que elas podem estar causando uma alteração na maneira pela qual os adolescentes se desenvolvem. “Entre os trabalhos da adolescência está o de estabelecer separação com relação aos pais e encontrar a calma e a tranquilidade necessárias a se tornar a pessoa que cada um decide ser”, ela afirmou. “As mensagens de texto afetam diretamente a execução dessas duas tarefas.” Os psicólogos consideram que o afastamento entre adolescentes e seus pais seja natural à medida que aqueles se tornam adultos autônomos, afirma Turkle, “mas se a tecnologia facilita demais manter contato, se afastar é mais difícil. Hoje temos adolescentes que enviam 15 mensagens de texto por dia às suas mães, perguntando coisas como que cor de sapato devem comprar”. Quanto à paz e sossego, ela disse que “se algo que está diante de você vibra a cada dois minutos, se torna difícil manter a concentração”. “Se você está sendo constantemente inundado por comunicações, a pressão por resposta imediata se torna muito forte”, ela acrescentou. “Assim, se você estiver no meio de um raciocínio, pode esquecer.” Michael Hausauer, psicoterapeuta de Oakland, Califórnia, diz que os adolescentes “tem imenso interesse em saber o que está acontecendo nas vidas de seus colegas, acoplado a uma terrível ansiedade sobre serem excluídos do diálogo”. Por isso, diz ele, a rápida ascensão das mensagens de texto traz o potencial de fortes benefícios e de fortes problemas. “As mensagens de texto podem ser uma excelente ferramenta”, disse. “Oferecem companheirismo e a promessa de conexão. Ao mesmo tempo, mensagens de texto podem fazer com que um jovem se sinta assustado e exposto em excesso.” Mensagens de texto também podem causar problemas nos polegares dos adolescentes. Anne Wagner, aluna da nona série em Bethesda, Maryland, costumava digitar no minúsculo teclado de seu celular LG com a mesma rapidez com que digitava em um teclado normal de computador. Passados alguns meses, começou a sofrer dores fortes em seus polegares. (Recentemente, ela diz que tem usado o iPhone que ganhou como presente de 15° aniversário, que segundo Wagner torna mais lento e menos doloroso digitar mensagens de texto) Peter Johnson, professor associado de ciências ambientais e de saúde ocupacional na Universidade de Washington, disse que era cedo demais para dizer se esse tipo de estresse é prejudicial. Mas ele acrescentou que “com base em nossas experiências com usuários de computadores, sabemos que uso repetitivo e intensivo dos membros superiores pode resultar em problemas musculares e do esqueleto, de modo que existe motivo para que nos preocupemos com a possibilidade de que um uso excessivo de mensagens de texto cause dano permanente ou temporário nos polegares”. Annie disse que embora sua escola, como a maioria, proíba o uso de celulares em sala de aula, com o LG ela era capaz de digitar textos embaixo do casaco ou sob a carteira. Ari Kapner, seu colega de sala, diz que “você finge que está apanhando alguma coisa em sua mochila”. Os professores muitas vezes desconhecem o que está acontecendo. “A questão é séria e se generalizou”, diz Deborah Yager, professora de química em uma escola secundária em Castro Valley, Califórnia. Ela recentemente conduziu uma pesquisa anônima entre 50 de seus alunos, e a maioria admitiu enviar e receber mensagens de texto durante as aulas. “Não consigo perceber quando isso está acontecendo, e não há o que eu possa fazer a respeito”, disse. “E não tenho tempo para policiar esse tipo de situação a cada dia”. Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME FONTE: PORTAL TERRA – THE NEW YORK TIMES Fonte: Diga Não a Erotização e Consumismo Infantil |